Roteiro Inacabado

5 de fevereiro de 2012 § 3 Comentários

Enquanto todos saíam de casa, ele retornava. Em seu caminho, só havia a lua, inalcançável, posta metodicamente no meio do céu por alguém que talvez quisesse brincar de ser Deus.

Embora sentisse a necessidade de dar passos largos, suas pernas não conseguiam corresponder. Afinal, pressa para quê? Por quem? Estar ali, sozinho, poderia não ser a concretização de um sonho, mas para ele, aquilo já lhe bastava. Não que a sua própria companhia fosse suficientemente boa, no entanto, ele se agarrou à oportunidade de olhar para múltiplas direções, sem julgamentos, numa vontade intensa de aproveitar aquela simples experiência.

Aos poucos, um festival de cores foi tomando conta daquela noite, até então, um pouco sombria. Não demorou muito para que os borrões coloridos, depois de alguns movimentos de abrir e fechar os olhos, assumissem a forma de diferentes tipos de pessoas. Todas elas estavam no mesmo caminho, a maioria em direções opostas à dele, que continuava seguindo sem qualquer expectativa.

Na verdade, havia tanto tempo que ele não esperava nada da vida que qualquer coisa com ar de novidade o chamava a atenção. Mas isso ocorria não porque ele se surpreendia com algum novo acontecimento, e sim, porque ele se esforçava em retomar aquele gostinho de viver, há muito esquecido.

Talvez ele não soubesse. Talvez só não quisesse admitir. Porém, desde a última vez em que se encontrou numa situação semelhante, tudo havia mudado (apesar de a realidade a qual ele pertencesse se mantivesse intacta, em todos os seus aspectos). A dinâmica do cotidiano continuava a mesma, as mãos entrelaçadas dos casais apaixonados estavam no mesmo lugar, os amantes de primeira viagem permaneciam nos mesmos becos e os amigos ainda encontravam motivos para celebrar qualquer coisa. No entanto, ao contrário disso, tudo parecia diferente porque era ele quem estava diferente.

Sem saber sob quais circunstâncias, algo havia lhe tirado quaisquer tipos de pulsões. Ainda lhe restava uma lista considerável de desejos, mas pouca mágica para realizá-los. No entanto, após alguns muitos passos, algo lhe ocorreu. Mesmo trajando uma roupa marcada pela completa ausência de cores, ele não caminhava despercebido. Ao olhar para trás, ele percebeu que alguém o olhava e, de alguma maneira, esse alguém lhe pareceu muito familiar. Depois de analisar, cuidadosamente, suas memórias, um tanto quanto incrédulo, ele conseguiu identificar quem era aquela pessoa que lhe seguia.

Foi exatamente nesse instante, que ele se virou, enfrentou todos os seus receios e, gentilmente, conduziu aquela personagem até sua casa. Ao chegar ao quarto, ele se despiu na frente daquele que, de algum lugar do passado, estava ali, o encarando com certa compaixão. Mesmo sem dizer uma única palavra, ao seu modo, ele parecia extasiado e satisfeito.

Finalmente, depois de tanto tempo, naquela noite ele dormiu feliz. Havia encontrado a si mesmo e, portanto, não estava mais sozinho em meio ao seu destino tão inesperado.

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