Para além de um quarto velho

8 de abril de 2012 § 3 Comentários

Quem o olhava não podia imaginar a quanto tempo ele se afundava naquela agonia. Ali, imóvel, só conseguia pensar em quanto aquelas quatro paredes o completavam. Afinal, foi praticamente uma vida que se passou, se perdeu e se reencontrou tantas vezes como é possível apagar e acender uma luz.

A cama, ainda quente, fora sua melhor e maior companheira. Cúmplice de horas indizíveis, ela ainda resistia bem ao tempo e guardava como uma fortaleza lágrimas, ironias e sorrisos. Apesar das muitas dores que ela podia causar, a cada noite, esse estranho relacionamento se renovava e ganhava mais força com o cerrar dos olhos.

Em toda aquela bagunça, somente ele se compreendia. Além disso, era o único que tinha autorização para dizer o quanto deveria ser mais organizado e para rir cada vez que falhasse neste objetivo. Era ali que ele se sentia seguro e podia conversar consigo mesmo, em voz alta, sem qualquer olhar alheio de desaprovação. Mentalmente, um grande acervo de filmes, de todos os gêneros, foi produzido com os finais mais improváveis. Contudo, talvez estivesse na hora de mudar de locação.

É claro que despedidas sempre causaram, causam e causarão alguma comoção. E agora é a vez dele. É a vez de partir para nunca mais voltar. É a vez de se lançar ao desconhecido em busca de “sabe-se lá o quê”. É o momento de parar e admitir que não é errado demorar para se decidir e tampouco se despedir. Por isso, muito sabiamente, ele resolveu se permitir levar o tempo que julgava ser necessário.

Se o fardo foi pesado, as caixas esparramadas naquele pequeno espaço também eram. Elas carregavam uma vida, ainda viva, e repleta de desejos, sonhos, inconstâncias e esperanças. Além disso, aquilo que foi deixado para trás também deixou o seu peso, somando-se a todo processo de mudança. Pois, se dizem que somos resultado daquilo que vivemos, obviamente, também somos resultado das escolhas que fazemos.

Depois de tanto olhar para além do seu velho quarto, ele optou por carregar todo o peso e trancar, definitivamente, aquela porta. Desde então, o nosso personagem nunca mais se questionou sobre o que deixou para trás e sobre o que poderia acontecer se ainda estivesse lá.

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